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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Parvoíce seguida de reflexão

Há uma imensidão de assuntos sobre os quais posso escrever e,talvez por esse motivo, não me consigo focar em nenhum. Desde as injecções de arte ao prémio Nobel do Mr. Obama, passando pela crítica política, são tantos os temas e tanto o que sobre eles há para escrever que sinto uma tensão de forças que correm aleatórias na minha cabeça e não me deixam pensar num só. Ora isso é uma chatice! diz o Tico para o Teco, sem resolverem absolutamente nada. Pois é, estão os dois, o meu Tico e o meu Teco encostados à sombra do meu cabelo a apreciar trocistas o belo caos idiota que deveriam controlar. E agora riem-se! Que engraçadinhos... Acham piada, não é? Ora e se eu decidir mandar-vos passear ao gabinete do Sócrates para verem se ele está a trabalhar e entretanto contratar dois neurónios de intelecto superior?, pausa, Ah! Bem me parecia.
Caros leitores, após este breve aparte, anuncio que estou pronta para começar.
Estando a tirar o curso de História da Arte devo informar-vos que me tornarei cada vez menos objectiva, deliciando-me a enfadar-vos com aqueles pequenos pormenores, aqueles grãozinhos de areia que se instalam entre as pedras que formam os grandes monumentos e que tanto contribuem para a ocupação das gavetinhas celulares do meu cérebro. Tal e qual como os meus professores da faculdade. Quero com isto dizer que são pessoas com um nível de cultura elevado e que, para eles, analisar e contextualizar uma obra é o mesmo que estar recostado num cadeirão a ouvir música e a bebericar vinho tinto. Embebedam-se naquele mundo distante que recriam com os seus vocábulos e vão para muito longe do seu estado sóbrio, objectivo.
Isto tudo para voz dizer que o meu professor de História da Arte da Antiguidade Clássica e Tardia em Portugal recusa-se a dizer que os espanhóis são espanhóis. «Eles são castelhanos» informou-nos ele na última aula, «porque nós somos todos espanhóis.» Tanto os galegos como os portugueses, como os próprios castelhanos, somos todos espanhóis! Isto porque originalmente fomos um povo denominado hispânico e por essa razão somos hispânicos, logo, espanhóis. Mais! O mestre Carriço ainda nos informou de que a nossa península seria hispânica se tal não nos ferisse o ego. Sendo nós, portugueses, tão pequeninos e insignificantezinhos comparados com um Luxemburgo, por exemplo, não poderíamos permitir que nos confundissem com os castelhanos, logo nós que definimos as nossas fronteiras tão cedo e que só por uma vez perdemos a independência, por um acaso do destino, para os reis do território logo ao lado do nosso. Nós não podemos fazer parte d'uma península hispânica! Desta forma, fazemos parte da Península Ibérica, embora tenha sido o povo celta o que ocupou a maior parte do nosso território, quando os seus contemporâneos iberos ocupavam a Espanha.
Então, não somos hispânicos para não nos confundirem com os castelhanos, mas somos iberos, ainda que estes tenham ocupado o território castelhano todo. Conclusão interessante.
De qualquer forma seremos sempre um apêndice inflamado de Espanha, sendo isso visível através do magnífico exemplo americano, cuja população acha que Portugal é uma província de Espanha. Por isso, meus caros patriotas, não vos preocupeis com tais mesquinhices e vede o que se passa nesta crosta com pus que é Portugal e talvez para a próxima votareis com consciência.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Desabafo de quem se está a redescobrir

Quando estamos habituados a fazer tudo acompanhados, ou melhor, quando nos habituamos a não fazer as coisas sem aquela pessoa que esteve presente durante parte da nossa vida, durante muito ou pouco tempo, e nos tornamos dependentes dela, não nos apercebemos do que estamos a perder.
É no período de transição que me encontro agora, o de redescobrir a independência e o acordar do espírito livre que vive em mim.
Sair à rua e fazermos coisas sozinhos, quando nos vemos desamparados emocionalmente, torna-se uma aventura, se o virmos através de um panorama positivo, pois caso contrário torna-se antes um tormento. Para mim, tornou-se uma odisseia interior e exterior bastante entusiasmante. Notamos e valorizamos o que de mais ordinário acontece e tornamos essas experiências vulgares em pequenos tesouros privados que nos fazem sorrir, como quando um condutor se mete connosco, as pessoas que nos abordam na rua para pedir informações, para pedir esmola utilizando métodos bastante originais que valorizam o dinheiro que damos, aqueles que nos tomam por estrangeiros, ou ainda os que apenas querem alguém com paciência para os ouvir... E não é só! Passamos a olhar com mais atenção para o que nos rodeia, apreciamos as ruas e os edifícios, o céu, as árvores, o rio, enfim, tudo aquilo que a vista alcança.
É um mundo inteiro que se abre e do qual não queremos sair. Por isso, quando me telefonam ou enviam sms que perturbam a minha paz e aventura interior torno-me bastante hostil. Pessoas que por vezes não nos ligam e passado muito tempo vêm ter connosco para relembrar o passado, outras que pensam ter ganho a nossa amizade profunda após um mês ou mesmo algumas semanas depois de nos terem conhecido, ou pensam ter conhecido... A isto, só digo: "Haja paciência!" . E a paciência não é bem o meu forte, pelo menos no que toca a estas coisas ou a certas pessoas. Não gosto de me sentir sufocada, nem pressionada, nunca fui de dar satisfações, nem de andar a rodear as pessoas. Também não gosto de cultivar sentimentos e relações que não são recíprocos e mais tarde virem tentar reavivar aquilo que já ultrapassei. Se há alguma coisa que queira, com jeito vou atrás dela e se por acaso me aperceber que me é de todo impossível conseguir no momento não encontro em mim resistência nenhuma em desistir ou adiar a 'luta'. Há momentos indicados para tudo e para falar comigo também. Há boas e más alturas e se eu respeito as más alturas dos outros gostava que respeitassem as minhas.
Neste momento estou a gozar a minha solidão. Solidão esta que tem sido bastante feliz, na medida em que me sinto livre, desprendida do dever de estar presente para alguém e de dar satisfações a esse alguém.
Por isso, vou tratando da minha vida sozinha, vou onde preciso ir sem companhia e de cada vez que o faço apercebo-me de que eu e o que está à minha volta, nomeadamente o que é novo e desconhecido, tem o potencial de me preencher e de me trazer momentos de felicidade. Como querem que abdique desses momentos para ir para casa, para os problemas da família, para levar com preocupações mal fundamentadas, para atender telefonemas que não me trarão nada de novo, para invadirem o meu espaço com histórias que, ou não têm interesse, ou não fazem bem ao espírito, como conversas tristes ou discussões e constatações de uma realidade infeliz, sem sonhos positivos para o futuro. A minha resposta é não, não abdico dos meus passeios por Lisboa, nem dos meus momentos sós, desligada de tudo o que me rodeia, a não ser o que não comunica por palavras. A única coisa que me fará comunicar é a perspectiva de sorrir, rir ou maravilhar-me com o entendimento e a companhia que o silêncio e um simples olhar podem criar quando estamos na presença de pessoas de quem gostamos e que gostam de nós, aquelas que conhecemos e que nos conhecem verdadeiramente.
(Um texto dedicado a Renato Rocha, que sempre me incentiva a escrever sobre tudo e nada)

segunda-feira, 25 de maio de 2009

'Vocabularizando'

Eu, que ando junto ao chão como um pequeno saramago, fui abençoada com um demónio, o meu narrador, que me faz companhia nas horas mais solitárias, discutindo comigo os mais variados temas, assim como também me ajuda a decidir que caminho devo seguir. Com ele divirto-me, viajando pelo tempo vertical, não cronológico, o tempo simultâneo em que passado, presente e futuro não o são, sendo apenas tempo, acontecendo todos ao mesmo tempo no espaço da minha alma.
Para que tal fenómeno metafísico pudesse acontecer em mim, tive de ser persignada pelo Universo e pela relatividade e, com um abrenunso divino, etéreo, 'Fiat lux!' e um demónio surgiu dessa luz para me ensinar e acompanhar.
Agora passeio-me pelo tempo e pelo espaço, criando sonhos e vontades que me ajudem a construir o meu pequeno memorial, para que este se possa reunir em convento com os restantes memoriais da história, independentemente do seu tamanho físico ou grandeza contextual.
Pelo caminho construirei a minha passarola e elevar-me-ei ao último patamar de mim mesma. No entanto, há que não esquecer os dominicanos, cães de Deus, que se escondem por trás das máscaras e só no Carnaval podemos ter um vislumbre daquilo que realmente são, acuadores de almas pequenas, como a minha, que não ambiciona nenhum convento, somente uma passarola que voe para mim, que me encontre e que me acorde, pois eu passei demasiado tempo adormecida num mundo em que eslavos passaram a escravos.

domingo, 17 de maio de 2009

E chora Blimunda

Eu, Blimunda, choro-vos pois as vossas vontades desapareceram. As vontades do campo e do mar voaram com o vento dos sonhos para um outro mundo, mais próximo de Deus. Assim, as almas das pessoas comuns deambulam vazias pelos campos e mares, fitando o céu com os dois espelhos baços que já nem chorar podem, pois para chorar é necessário sentir e uma alma vazia não sente, porque sem sonho não há vontade e sem vontade a alma fica amorfa, repercutindo-se exteriormente sob a forma de apatia mental e emocional. Por isso choro-vos porque chorar não podeis vós, sinto por vós e rogo a Deus por vós, mas a voz Dele chega trémula aos meus ouvidos. Também ele chora com o que vê, um mundo escasso de nuvens fechadas, sim, porque ainda há vontades, são as vontades dos homens de poder, que têm dinheiro e protegem-se mutuamente na injustiça e, portanto, através da injustiça controlam as almas daqueles que, perdendo a fé na terra e no céu não têm onde se agarrar e seguem os que vivem na sua própria peça de teatro, no seu cenário em talha, cortinados de tecidos ricos e pesados, ouro, jóias, festas, procissões, carros, obras, novos projectos, discursos sobre como tudo está maravilhoso. Toda esta ilusão cria nas almas das pessoas humildes um sonho falso, não da própria pessoa, mas sim impingido à pessoa que vive desamparada no desespero de uma vida de sofrimento e luta e que assim se deixa levar, arrastada nessa ilusão de passarola que esconde o mundo raquítico, que cabe num convento, o mundo em que vivemos.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Cai a chuva, escorrem ideias

A chuva cai algumas vezes durante a obra Memorial do convento e quando cai, cai 'cá fora' também- As palavras escorrem horizontais pelas páginas do livro e aleatoriamente escorrem as gotas da chuva, escritas na horizontal na página do livro, pela minha imaginação fora e dentro, porque é no meu cérebro, nomeadamente no hemisfério direito, que se cria o mundo do imaginário, das imagens dadas pelas palavras escritas na horizontal das páginas do meu livro, que são traduzidas singular e pluralmente, numa euforia de sentimentos, emoções e visões, pelo tal hemisfério direito, que sem o esquerdo viveria na minha cabeça atrofiado e desarmonizado (por não ter com o que se harmonizar) e em constante inquietação e devaneio, porque viver apenas através da vontade e imaginação não é saudável, há que ter o freio da razão, pelo teco do hemisfério esquerdo, para manter o tico do direito preso pelo fio que o impede de voar para longe, tão longe que se perderia no infinito do universo do fantástico e das possibilidades improváveis, enfim, as chuvas do livro continuam a cair aleatoriamente, agora a escorrer pela minha face, sim, porque a imaginação é assim, as letras do livro começam por se transformar em gotas de chuva e esborratam a página, depois a luz do nosso candeeiro apaga-se e sentimos o frio da água a bater na nossa pele e quando damos por isso já estamos molhados ao lado de Blimunda e Baltasar, que seguem o seu caminho para a morada da passarola, arrastando os pés na lama, cansados mas satisfeitos por se terem um ao outro, a companhia silenciosa de duas almas que se completam na sua humildade. No fim, quando o cansaço e o sono nos invadem, o quadro vivo formado na nossa mente projectado à frente dos nossos olhos e que nos envolve densamente, mais densa quanto mais apaixonante o livro, começa a desvanecer-se, a luz do candeeiro reaparece atrás de nós e já estamos secos e quentes, recostados no almofadão fofo, olhamos para as páginas e os borrões desapareceram, voltaram à forma original, à de linha torneada em letra. Após verificar que a realidade (se é que é realidade e não mais um sonho de um outro eu ou de outrem que fez de nós personagem principal e uma vida inteira, os 100 anos do sonhado serão só e apenas as oito horas do sonhador e quando o sonhador acordar será a nossa morte), continuando, ao verificar que tudo está como deve estar fechamos o livro, passamos a mão pela capa, pousamo-lo na mesa da secretária e vamos dormir também.

O mundo aos olhos de Deus


Acho que já está pronto para colocar a última peça, pensa Saramago olhando para baixo, para D.João V, vá põem lá, a última pedrinha de madeira é ali, não, não é aí tosco, ali, isso, agora fica a brincar com esses bonequinhos de madeira, tens aí o Papa e os cardeais reizinho. Bom, agora vamos a Mafra descansar de D. João V, hoje dei-lhe uma insónia para ver o que faria para tentar dormir, mas ele decidiu ir acabar a maqueta, às vezes cansa ajudá-lo nestas brincadeiras, vamos lá ver como se porta quando lhe encomendar um monumento a sério, um monumento com pedras de pedra, grandes e pesadas, um edifício bem maior que a sua pequena magnificência. Ora aqui temos Mafra, Saramago pega no pequeno telhado à escala 1:100 de uma casa modesta e puxa-o, a dormir no chão da cozinha, sobre um cobertor de lã grossa, ainda bem que ainda há ovelhas em Portugal que forneçam esse bem que tanto aquece no Inverno e que no Verão, se não aquece, pelo menos serve de aconchego aos ossos, para que estes não batam directamente no soalho, enfim, sobre esse cobertor dormem Baltasar e Blimunda, Onde é que eu guardei a lanterna, o dia não pode começar uma hora mais tarde, e Blimunda tem de comer o seu pão, aqui está, Saramago liga a lanterna sobre a linha do horizonte, Blimunda está a acordar, os seus dedos procuram já o pão que tem de comer antes de olhar para Baltasar, come Blimunda, come que Baltasar está quase a acordar, segundo o meu caderno tem acordado às cinco e meia. Saramago fica a apreciar aquela rotina matinal que tanto o delicia, até que os dois se separam, Baltasar sai com o pai e Blimunda fica com a mulher que a abraçou como filha e fazem os seus afazeres diários, os de homem e os de mulher.

Saramago dá um ligeiro toque no globo e vai para a Holanda, chama pelo padre Bartolomeu Lourenço que prontamente lhe responde, Estou aqui meu Deus, E a tua pesquisa, De novo na estaca zero, Pois, não te aconselhei eu a passeares pelas ruas em vez de te meteres nas universidades, esse tipo de conhecimento é demasiado precioso para ser divulgado assim, sob pena de ser censurado ou desejado para fins menos correctos, E o meu fim é correcto Senhor, O teu não suspeita mal, queres voar, queres ver o mundo da minha perspectiva, é perfeitamente razoável, mas aproveita para passear e falar com as pessoas, talvez tropeces no éter sem querer, E não mo podia dar logo, tenho mesmo de o procurar, Que pergunta a tua Bartolomeu, se eu te desse tudo de mão beijada não aprendias nada, Tem razão Senhor, diz Bartolomeu a Saramago e vendo que este se afasta interpela-o, Não me acompanha no meu passeio, Não posso, quer dizer, posso e não posso, sou omnipresente, mas neste momento estou a documentar o que se passa neste mundo a pessoas que como tu não têm capacidade de entender a vida e o tempo como algo simultâneo por isso tenho de ir, Entendo, embora esse conceito seja de facto difícil de conceber, Vocês são limitados, existem coisas que não compreendem na sua totalidade pois o corpo enquanto massa orgânica, biológica e portanto, densa, não permite vivenciar tudo aquilo que o universo e eu, vosso criador vos tenho para oferecer, Certo Senhor, então adeus, Adeus Bartolomeu, e não te esqueças que estas nossas conversas não são para ser divulgadas ao povo, ainda não estão preparados para voar, Bartolomeu segue o seu caminho com um ligeiro sorriso nos lábios e Saramago continua a viajar os dedos pelo seu globo, brincando com as suas marionetas vivas, as suas personagens humanas, ora deixando que elas vivam por si ora criando obstáculos que condicionam as opções de vida das mesmas.
Saramago como Deus do mundo do Memorial do Convento, entretendo-se com a sua maqueta gigante.

domingo, 3 de maio de 2009

Reflexão intercalar


Construindo a minha passarola em forma de convento um dia de cada vez, colocando pedras todas as semanas, cada uma mais minha que a outra, mais lapidada pela minha expressão, mais densa devido aos meus pensamentos, mais próxima do meu presente.
Penso que as últimas seis publicações deste blog representam parte da minha evolução pessoal e também da minha expressão. Com Saramago apercebi-me mais uma vez de quão longe me encontro de me encontrar e de chegar à perfeição, se não a geral, à minha perfeição.
Gostei muito de escrever durante estas semanas, porque estive mais ligada ao mundo exterior do que é habitual em mim e tentei exprimir o que sinto em relação ao que me rodeia o melhor possível. Também gostei bastante de escrever sobre o Memorial do Convento e tenciono escrever mais e melhor sobre o mesmo, pois é um romance com muito potencial de reflexão a vários níveis.
Deste modo, considero que os resultados até agora foram positivos.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Passado e Presente


Estava nossa majestade o rei D. João V no seu gabinete sumptuoso, rasgado por dois janelões ladeados por cortinas tão longas que as suas franjas douradas descansavam no chão de mármore, repleto de estantes com livros nunca abertos e um globo terrestre no centro da sala, globo este que tem duas cruzes vermelhas, uma grande sobre o Brasil e outra mais pequena sobre o continente africano, marcando desta forma os locais de onde provêm as riquezas que abastecem o reino. Bom, estava D. João V dormitando e babando no seu cadeirão de veludo vermelho, em frente à secretária de pau-brasil, totalmente adornada, quando entra pela porta o ministro real das finanças, Vossa Senhoria, diz o ministro real das finanças, Huh, ah, diga ministro, diz el-rei limpando o fio de baba que lhe escapava pelo canto da boca, Bom, trago-lhe as últimas contas do reino vossa excelência, Diga lá como vão os meus bens, Pois, majestade, não estão muito bem. As receitas do reino estão a cair e, se me permite, aconselhava-o a investir no país, disse o ministro, Hmm, entendo. Prossiga, ordenou o rei, Eu penso, vossa majestade, que vossa excelência deveria investir na agricultura e nas últimas inovações industriais, aconselhou o ministro, Ah, pois claro meu caro ministro, sei exactamente o que fazer. Vamos construir um mosteiro em Mafra, Para quem, vossa senhoria, Para os frades franciscanos, Para quê, Para eles lá viverem. A rainha engravidou, tal como eles disseram e eu fiz uma promessa, Vossa excelência, e a agricultura, A agricultura... Ah, já sei, vamos construir um aqueduto em Lisboa, agora vá falar com os restantes ministros. O ministro retirou-se e el-rei foi para a sua mesa favorita, a que tem assente a sua maqueta da Basílica de S. Pedro.


Estava o primeiro ministro José Sócrates com o seu nariz sentado na secretária do seu gabinete, olhando para o monitor do seu magalhães, quando entra o ministro das finanças, Então Zé, estás bom, Estou bem Teixeira, que queres, Olha pá, trago-te os novos números, Estou a ouvir, Então, há 450000 desempregados e há mais duas empresas em risco de falência, a agricultura está cada vez pior, assim como as indústrias, Eu tenho a solução, meu caro Teixeira, Então Zé, Vamos construir um aeroporto na Ota, Oh Zé, mas estamos em crise, É verdade, já me tinha esquecido, então vamos construir um TGV. Agora vai falar com o Lino que eu ainda tenho muitas coisas para fazer. Teixeira sai da sala e José Sócrates volta a concentrar-se no ecrã do seu magalhães. Está a jogar solitário, já só falta colocar os reis nos naipes certos. Acabou, finalmente, Ena, acabei... Porreiro pá.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Surpresas


Numa transição de um período para o outro, deixo-vos um gostinho da dimensão poética de José Saramago com o poema 'Intimidade':

«No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.»
José Saramago

Consultado em http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/j.saramago.html



"Procuro a tua mão, decifro a causa/ De querer e não crer, final, intimidade". Ora que situação embaraçosa esta! Eu que mesmo reconhecendo a sabedoria de Saramago, nunca simpatizei com a sua obra, vejo-me pegar numa das suas várias mãos (a memorial!) e querer ganhar a sua intimidade! Se no início pegava nela por obrigação, como tive de pegar na da minha mãe para atravessar a estrada, quando pequena, agora pego na memorial com carinho, arrastando os olhos e os dedos vagarosamente, apreciando a estética sólida da página, as veias pretas donde fluem vocábulos ricos, nutrientes para a minha alma de artista e vejo-me a desejar entrar na sua história, vivê-la enquanto a leio em vez de lê-la de rompante para ir viver noutro lado qualquer.
Já nada me surpreende e como diz Pessoa e muito bem: "primeiro estranha-se, depois entranha-se".

quinta-feira, 26 de março de 2009

O fluir do pensamento


Se as gotas de água fossem letras e se juntas formassem palavras, frases e parágrafos, seríamos todos poetas.
Beber dessa água seria como beber inspiração, criatividade e sabedoria pois, como não há duas gotas iguais, beberíamos sempre letras diferentes que juntas comporiam palavras sempre ricas e originais.
Se hoje a criatividade não tem fim, com uma água assim, letrada, seria um constante auge e uma constante reinvenção da escrita e da língua em si. Não existiriam aulas, mas sim tertúlias. Todos partilhariam as experiências e os conhecimentos únicos adquiridos através da água e seria uma partilha constante e gigantesca. Isto, claro, se não existissem egoístas e avarentos no mundo que quisessem tudo só para si. Provavelmente, os que não eram egoístas e avarentos torna-se-iam neles, sentido-se injustiçados por partilharem e não terem nada em troca. Imaginemos que nesse mundo em que a água é palavra, não existem tais pessoas. São todos inocentes, puros, gratos e altruístas. Os momentos de tertúlia entre essas pessoas seriam de compreensão interior e inconsciente, pois uma língua sem regras nem limites não pode ser entendida apenas pelo consciente, que, por vício, compartimenta e organiza as coisas do mundo. Aquilo que vive no interior é do inconsciente, porque é livre e fluido e, portanto, uma língua inconstante, efémera e ondulante só pode viver nesse local selvagem e virgem e ser compreendida de forma mais espiritual.
Pergunto-me se não será desse mundo, com essa água, que vêm alguns escritores, como Fernando Pessoa. A sua escrita é profunda, mesmo quando a intenção é ser leve e fresca, as palavras ganham vida própria, personalidade e novos sentidos e os versos são fluidos e ondulantes, cheiram a maresia e sabem a mar... Ao mar da poesia. Faço várias referências a este mar e a Fernando Pessoa. Isto porque quando leio Pessoa, vejo-me a mim, um ser um tanto plural e em constante euforia interior, que não a transparece fisicamente para o exterior, recorrendo, para a exprimir, a meios artísticos, nomeadamente à escrita e, no que toca ao mar da poesia, evoco-o porque quero alcançá-lo, não com a pretensão de se outro Pessoa, porque não possuo o seu génio, mas sim porque quero trazer alguma poesia comigo, para a deixar correr nos textos que escrevo.
Beber da poesia e mergulhar na prosa, partilhar o que aprendi e aprender com os outros e, assim, exceder-me a mim própria. É o que eu pretendo. E se para isso tenho de viajar para o mundo de onde os escritores (com E grande) vêm e tiver de beber da água letrada, tanto melhor!

domingo, 15 de março de 2009

Uma ideia, outra ideia... Devaneios

Sei que o prazo para a entrega do trabalho já passou, mas não escrevo para ser avaliada. Hoje escrevo porque escrever confere-me liberdade, alivia-me dos pesos que decidi carregar e ajuda-me a raciocinar.

Eu escrevo em qualquer lado, a qualquer instante do dia e todos os dias. Posso não transpor o que escrevo para o papel, mas ainda assim escrevo. Tudo o que penso, todas as coisas que imagino passam por uma reflexão do meu consciente (que é bastante inconsciente) e aparecem na minha mente em forma de contos. Eu não vejo o texto na minha cabeça, vejo imagens. No entanto, existe um narrador que acompanha essas imagens e conta as suas histórias.

É um processo engraçado, o de viver através de uma história narrada por um narrador interior, de voz serena e quente e ilustrada por imagens luminosas. É como se dentro de mim vivesse uma outra pessoa encarregada de me ensinar as coisas da vida através de histórias.

O meu narrador é como um rio: sempre fresco e de pulsação irregular, vai contando histórias de forma mais elaborada, à medida que segue o seu curso e evolui no seu presente, nunca parando nem revivendo o passado, a não ser que eu o peça. Sim, porque à medida que o rio da voz que conta a história da minha vida vai passando, retiro dele os contos que quero e levo-os para o lago da minha memória, para que o narrador possa contar mais tarde. Mas esses episódios nunca são contados da mesma forma. Ao original é adicionada a nostalgia e o 'fingimento poético', pelo que resultam várias versões do mesmo conto, cada uma mais dispersa, mais madura e mais elaborada da versão anterior.

Assim como Fernando Pessoa tem os seus heterónimos , sendo que um desses heterónimos é mestre, Alberto Caeiro, que o inspira, o mesmo se passa comigo e com este narrador. Ele escreve bem melhor que eu, é mais eloquente, mais poético, mais musical, mais tudo. Quando escrevo, normalmente o narrador apodera-se do teclado ou da caneta e ajuda-me a produzir texto e a progredir e quando isso não acontece, a diferença entre textos com e sem ele é enorme.

Acho que todos nós temos outro eu dentro de nós, que pode ser mais ou menos perceptível, na medida em que é mais parecido com a própria pessoa ou não (como Bernardo Soares que quase se confunde com Fernando Pessoa), mas também pela forma como intervém no nosso dia-a-dia.
É interessante conhecer esse indivíduo que está sempre presente, sendo a nossa melhor companhia na nossa eterna solidão, e que, por não ter corpo, por ser apenas espírito e ideia, acaba por ser 'omnipotente', possuindo uma sabedoria que pertence ao nosso inconsciente e que se vai revelando através do que chamamos intuição e 'visões'. Penso que, no fundo, é daí que vem da genialidade, da conversação entre o nosso eu consciente material e o nosso eu transcendente (in)consciente que nos ajuda a evoluir e amadurecer espiritual e ideologicamente. As pessoas que desenvolvem mais essa conversação, aquelas que sonham acordadas e vivem o mundo exterior através de uma perspectiva interior, intimíssima e única (e certamente fascinante), são aquelas cujo génio é genuíno e cuja obra é aparentemente difícil de compreender, mas que é apenas complexa. São exemplos de genialidade Fernando Pessoa, que através das suas múltiplas dimensões do eu, chegou, não só à sua própria unidade, mas também à da humanidade, apresentando também uma mentalidade bastante vanguardista sobre o mundo material, o seu mundo pessoal e o mundo espiritual e Albert Einstein que nos revelou a Teoria da Relatividade, que explica que espaço e tempo são relativos, que o intervalo de tempo e o comprimento não são absolutos (e pouco mais posso dizer a respeito, pois não tenho conhecimentos suficientes para a explicar bem). Exploraram-se ao máximo: sonharam, pensaram, viveram e transcenderam a mentalidade da sua época.


"Aquilo que, creio, produz em mim o sentimento profundo, em que vivo, de incongruência com os outros, é que a maioria pensa com a sensibilidade, e eu sinto com o pensamento."
- Autobiografia sem Factos. (Assírio & Alvim, Lisboa, 2006, p. 93)


"A superioridade do sonhador consiste em que sonhar é muito mais prático que viver, e em que o sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito mais variado do que o homem de acção. Em melhores e mais directas palavras, o sonhador é que é o homem de acção. "
-Autobiografia sem Facto. (Assírio & Alvim, Lisboa, 2006, p. 110)


"A Ciência sem a Religião é coxa, a Religião sem a Ciência é cega."
- Fonte: Einstein, Albert, Ideas and Opinions, Crown Publishers, Inc., New York, 1954


"Não existe nenhum caminho lógico para a descoberta das leis elementares do universo – o único caminho é o da intuição."
- Fonte: O Pensamento Vivo de Einstein

Consultado em: www.wikiquote.com

A vida, o pensamento e a escrita são como rios, correntes de água que vão escavando a terra (o mundo) deixando a sua marca. Se as pessoas viverem, pensarem e se expressarem intensamente e com profundidade, deixarão uma marca maior e mais rica. A capacidade criadora e a sabedoria não têm limites e são acessíveis a quem estiver aberto às mesmas.
Todos podemos alcançar o génio.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Século XXI, Século XX e Sttau Monteiro

Este ano, marujos, é ano de eleições! E como neste momento estou a estudar Luís de Sttau Monteiro, que é outro do grupo dos capitães do oceano da literatura portuguesa, pensei ir à pesca duma redacção da Guidinha (uma personagem que o escritor criou para, de forma subtil, expressar o que sentia e pensava sobre o regime salazarista) que ilustrasse o ambiente das eleições de 1958, entre Humberto Delgado e Salazar.
Após algumas redes lançadas (e de algumas risadas) caiu-me peixe graúdo nas mãos molhadas que, com muito gosto, partilho com os leitores deste blog:
Eleições no Rebenta Canelas
«Ena pai o que para aqui vai por causa das eleições! ena pai! quem não conhecesse o Rebenta Canelas cá da Graça e visse o que está a acontecer até era capaz de pensar que valia a pena tomar conta dele e que os vencedores iam ganhar muito com a vitória! é claro que as pessoas que sabem como as contas andam o que querem é estar de fora ai não! enfim o melhor é eu começar do princípio senão ninguém me entende pois os sócios do Rebenta Canelas da Graça Futebol Clube vão votar uma gerência nova e há os que são do pró e os que são do contra os que são do pró votam na gerência que está à frente do clube e os que são do contra votam contra ela está-se mesmo a ver que não podia deixar de ser assim os que são do pró findam a colar cartazes a dizer que está tudo bem e como têm muito pilim andam a colar cartazes nas paredes nas árvores em toda a parte só ainda não colaram cartazes nas costas da gente porque os distribuidores não têm comissão nisso senão já estávamos cartizados que era uma limpeza os que são do contra coitados não podem colar cartazes porque se os colarem vão parar à chana por andarem a fazer propaganda contra a moral da Graça que toda a gente sabe que é muito boa mas isto ainda não é tudo não senhor o grande problema que há cá no clube é o do bufete que custa os olhos da cara aos sócios de maneira que há uns que querem o bufete e há outros que querem largá-lo esse é que é o grande problema mas não se pode falar nele não senhor porque a direcção não deixa os do contra podem falar disto e daquilo mas quem falar do bufete já sabe o que lhe acontece de maneira que as eleições do nosso Rebenta Canelas Futebol Clube da Graça são assim como um jogo de futebol em que seja proibido tocar com os pés na bola não sei se me percebem se não perceberam venham até cá ver o que se está a passar que eu prometo gargalhadas a todos mas de qualquer forma a Graça está a ser um bom exemplo para todos nisso de correcção somos todos tão correctos que nem sequer falamos das coisas que nos interessa não vá alguém ficar magoado em matéria de correcção ninguém nos leva a palma não senhor e os outros clubes podem pôr os olhos no que se está a passar na Graça porque se seguirem o nosso exemplo ficam como nós e se todos ficarem como nós deixamos de ser subdesenvolvidos porque como os outros começam a subdesenvolver-se ficamos todos iguais e ninguém nota que a gente é diferente o que é preciso é que os outros sigam o nosso exemplo palavra que o mundo vai ser bestial quando os Rebenta Canelas Futebol Clube de Londres de Paris de Nova Iorque e de Moscovo ficarem como o da Graça o que não se percebe é que eles não nos imitem sim não se percebe como é que eles vendo como a gente é bestial e sabe tudo não nos imitem às vezes penso que eles são parvos mas o meu pai diz que há uma data de anos que lê nos jornais artigos escritos por senhores bestialmente importantes a dizer que o mundo vai acabar por nos dar razão diz ele que anda a ler artigos há mais de quarenta anos e que o mudo não há meio de nos seguir o exemplo o que eu digo é que ou anda malandrice no caso ou que os directores do Rebenta Canelas estrangeiros não lêem o nosso diário de notícias da Graça quem sabe se eles falarão a nossa língua eu cá se fosse importante traduzia os artigos cá do nosso diário de notícias e mandava-lhes as traduções para ver se eles conseguem entender-nos é que se eles não seguirem o nosso exemplo vão continuar a minguar a minguar enquanto a gente cresce com as nossas boas ideias e daqui a uns anos somos uma grande potência e eles coitaditos estão todos subdesenvolviditos e lá se vai o equilíbrio do mundo sim porque quem sabe tudo somos nós e basta olhar para o diário de notícias cá da Graça para se ficar espantado com o nosso saber e com a ignorância dos outros mas além disso há outra razão para os outros seguirem o nosso exemplo que tão bons resultados está a dar e esse motivo é que é uma pena que este nosso exemplo que é tão bom e tão útil fique desperdiçado sem ninguém o aproveitar quando penso nisto que se está a passar de termos tão bons exemplos já que não podemos exportar mais nada pronto sempre exportávamos qualquer coisa cá por mim estou convencida de que a direcção ganha as eleições e que mais tarde ou mais cedo o mundo vai seguir o seu exemplo para bem da humanidade sim porque a Graça é um modelo. »

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Sonho, Baixa, Pessoa e Eu




Um dia a preto e branco, como uma fotografia antiga. Local: Lisboa. Estava a passear pelo Terreiro do Paço, a fitar o estuário do Tejo cinzento e calmo. Olhei para trás e vi o arco do triunfo que dá para a Rua Augusta. Senti um calor avermelhado no peito ao contemplar tal grandiosidade e beleza: uma fileira de arcadas aconchegavam-me e dirigiam o meu olhar para o grande arco. Andei na sua direcção como se estivesse hipnotizada, ficando mais pequena à medida que a sua imponência de pedra me engolia. Foi então que eu vi. Vi-o a sair do café de cabeça baixa, olhos presos no chão. Caminhava rápido e lançava pequenos olhares para trás, como se estivesse a fugir da sua própria sombra. Pus-me no seu caminho e, quando me alcançou, parou.

-Bom dia Madalena! - disse, sobressaltado com a minha presença inesperada.

- Bom dia! Estavas a fugir de quem?

O homem sorriu ligeiramente. Nunca foi muito expansivo em público.

- De mim, suponho. E dos outros também.

-Posso fugir contigo até ao fundo da rua?

-Claro.

Começámos então a nossa escapadela pela Rua Augusta. Começou a chover. À medida que a chuva caía e cantava na calçada, as pessoas corriam para os cafés para se abrigarem. Mas eu e Fernando Pessoa continuámos a passear no meio da rua.


- Gosto de andar à chuva. Principalmente quando chove assim, 'a potes'. - disse, olhando para ele- Fernando, estás tão cabisbaixo hoje... Passou-se alguma coisa?

- É a Ofelinha.... - disse baixinho, olhando para o chão.

- Ah... - intervim, ficando esclarecida. Calei-me.

Estávamos a andar, ambos calados. Pessoa tinha a sua máscara posta. Estava pesaroso, era notório, mas a sua mente é tão complexa e misteriosa que cria uma camada de água turva que nos impede de ver o fundo.
Inclinei-me até conseguir olhar para o rosto dele e sorri-lhe.

- Olha para o céu. Sente a chuva e não penses por um momento.

Não me respondeu, mas olhou para cima, para as nuvens chorosas.

- Como te sentes?

- Mais leve. Estava tão absorvido em mim que não reparei na chuvada que está a cair.

Fomos assim ao longo da rua, postura direita, sorriso leve, calados, a apreciar a rua deserta e a ouvir a melodia da chuva.
No entanto, de uma das transversais, cortou um guarda-chuva preto o horizonte chuvoso. O ponto preto começou a dirigir-se na nossa direcção. Já não era só um ponto preto, ou um guarda-chuva. Era um homem. Era Ricardo Reis!

- Então, estão os dois à chuva? Metam-se debaixo do chapéu. Se ficarem à chuva apanham uma pneumonia.

- Obrigado Ricardo, mas eu e a Madalena preferimos ficar a apanhar chuva. Não quer experimentar?

- Não, muito obrigado. Não é das coisas que me dê mais prazer. Além disso, não quero ficar doente. Acho que vão precisar de mim saudável mais tarde para tratar de vocês. Até logo.

- Até logo Ricardo. - despedi-me.

- Se calhar o Ricardo tem razão. É melhor irmo-nos abrigar.

- Disparates! Já reparaste que está tudo cinzento? Até nós estamos cinzentos.

- Sim, pois estamos. Mas o que é que isso quer dizer?

- Bom, nós não somos cinzentos. O meu cabelo é castanho, assim como o teu, os meus olhos são esverdeados e os teus castanhos, a nossa pele é 'salmão', e por aí a diante.

- Então o que é que se passa? Porque é que estamos cinzentos?

- Deve ser um sonho. Não sei se é teu, se meu, se de um desconhecido.

- Ah, sim! E se estamos num sonho, não podemos ficar doentes, por isso, podemos andar à chuva o tempo que quisermos.

-Melhor! Podemos fazer o que bem entendermos porque as pessoas que vemos não são reais, logo não temos de nos preocupar com as aparências. E sabes o que me apetece agora? - Fiz uma ligeira pausa - Quero dançar!

- Dançar?! Agora?

- Sim, agora. Acompanhas-me?

- Não sei, Madalena.... Os sonhos são tão irreais... Não me parece palusível. Devemos ser prudentes.

- Estamos num sonho! Podes ser tu mesmo! Podes desmascarar-te. Não tens de ter medo... Então, vens? - perguntei-lhe, estendendo-lhe a mão.

Pessoa agarrou a minha mão e conduziu-me numa dança sem regras, num estilo que só os dois entendíamos e ao som de uma melodia tão pura e única como é a da chuva caindo na calçada.

Dançámos.
Dançámos, dançámos, dançámos
E dançámos pela Baixa fora.
Dançámos todos os miradouros,
Todas as ruas,
Todos os cafés,
Todas as praças,
Todos os teatros,
Todos os cantos e recantos desta trama viva.
A Baixa.

E as pessoas não viam,
Só passavam, corriam, conversavam, riam.
Mas não viam
E não dançavam
Nem sentiam a chuva
Eram meras sombras de si próprias presas num sonho.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Conversa

Reis e eu estamos sentados à beira de um grande lago que reflecte o cinza platinado do céu. Ele está a olhar para o céu, calado, entretido no seu prazer íntimo. Eu olho para o lago, calada, angustiada pelo turbilhão de sensações e pensamentos que me vão ocorrendo. Nisto, indago sonoramente:
- Lembras-te da tua infância?
- Uh?! - disse, acordando do seu sonho - Sim, vagamente.
- Eu lembro-me de que a água foi uma constante durante a minha infância. Brinquei nela, chorei nela, falei com ela. Vivi nela. Era como se pudesse chegar a um mundo meu com e através da água e, nesse mundo, eu era feliz. Eras uma criança feliz?
- Sim, suponho que sim.
- Há algum episódio que te tenha marcado?
- Não. A minha infância foi normal. Sem emoções muito fortes, tirando partido das coisas boas e ignorando as más.
Calo-me por um momento, pois apercebo-me que ele não está muito falador. No entanto, não consigo conter-me. Tenho de continuar:
- O que é que somos?
- Homens. - Responde Reis - Eu sou um homem e tu uma mulher.
- Oh! Não me referia a isso... Quero saber de que somos feitos, de onde viemos, que fazemos cá ... Consideras-te boa pessoa Ricardo?
- Ai... - Suspirou.
«Não quero recordar nem conhecer-me.
Somos demais se olharmos em quem somos.
Ignorar que vivemos
Cumpre bastante a vida.
Tanto quanto vivemos, vive a hora
Em que vivemos, igualmente morta
Quando passa connosco,
Que passamos com ela.
Se sabê-lo não serve de sabê-lo
(Pois sem poder que vale conhecermos?)
Melhor vida é a vida
Que dura sem medir-se.»
- Claro que vale a pena conhecermos... É importante. Dá sentido à vida. Qual é o sentido da tua vida?
- Madalena, fazes demasiadas perguntas. Como diz o Mestre: «O Mundo não se fez para pensarmos nele/ (Pensar é estar doente dos olhos)». Se continuares a pensar dessa maneira ainda acabas como o Pessoa.
Nesse mesmo instante aparece Fernando Pessoa no cimo do monte. Começa a descê-lo, cambaleando ligeiramente. À medida que se vai aproximando a sua face branca e olhos carregados de angústia e insónia ficam mais nítidos.
- Então Pessoa, outra insónia? - Perguntou Reis.
- Outra. - disse melancolicamente - Por acaso não viram o Mestre Caeiro?
- Não, ele está fora. Só volta ao fim do dia. Foi à cidade buscar o Campos. - Informei-o.
- Ah, pois, o Campos. Fugiu outra vez para a cidade? - Perguntou Pessoa.
- Fugiu. Eu já lhe disse que tanta euforia lhe faz mal. - Retorquiu placidamente Reis.
- Senta-te connosco Fernando. - Convidei-o.
Pessoa inclinou-se para a frente e, flectindo as magras pernas, sentou-se na relva verde.
Ficámos os três calados. Reis voltou para o seu céu, eu para o meu lago e Pessoa para ele próprio.
«Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.
O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo.
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.
Trémulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?»
Umas horas mais tarde apareceu Caeiro, sorridente, arrastando pelo braço Campos, que ainda olhava para trás, tentando descobrir alguma réstia de cidade por entre os montes.
- Então, estão todos calados? Não me digam que estavam a pensar? - Interrogou Caeiro.
- Mestre! - Dissemos em coro.
Caeiro e Campos sentam-se ao nosso lado, virados para o lago.
- Mestre, confesso, voltei a perder o sono de tanto pensar. - Lamentou Pessoa.
- Ai Pessoa... Não procures aquilo que está à frente dos teus olhos. O «único sentido oculto das coisas/ É elas não terem sentido oculto nenhum.» Não penses, olha.
- Ó Mestre, mas ao dizer isso o mestre já está...
- Shhhh! - Sussurrou Campos - Não vale a pena tocares nesse assunto, Madalena.
- Querem dizer alguma coisa? - Disparou Caeiro.
- Sim! O mestre dá muita atenção à visão. E os outros sentidos?! Eu não gosto somente da visão! Eu sinto com tudo! Eu oiço! Eu vejo! Eu toco! Eu saboreio o «r-r-r-r-r-r-» dos motores e o «tic-tac» dos relógios! Eu...
- Já percebemos Campos. - Interrompeu Reis - Um dia destes ainda tens um ataque cardíaco.
Calámo-nos. Olhámos todos para o lago. Este, conforme o vento o acaricia, vai ondeando, revelando formas desconhecidas. Estas formas são os verdadeiros 'eus' de cada um e de todos e, desta vez, nem Caeiro se pôde esconder do seu rosto pensante.
Agora, o Mestre, pensa.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Rios

O dia estava feio. O céu estava triste e chorava para o mar agitado.
Eu estava dentro do comboio, rumo a Lisboa. A minha carruagem estava cheia com uma diversidade enorme de pessoas.
Ia eu sentada no meu cantinho, com a cara esborrachada contra o vidro, fitando aquela paisagem agreste ao mesmo tempo que ia ouvindo as pessoas que me rodeavam e, juntando água e pessoas, comecei a pensar que tipo de rio seria cada pessoa daquela carruagem.
Eram muitas pessoas, por isso, transmutei a ideia. Se as diferentes partes de Fernando Pessoa fossem rios, que características teriam?
Alberto Caeiro, homem com ares do campo, inocente, simples e contraditório. O seu rio seria calmo, fresco, mas profundo, pois o seu espírito é apenas aparentemente transparente.
Ricardo Reis, o epicurista estóico, amante da mitologia greco-romana. O rio que o representa seria sereno, transparente, vagaroso e percorreria apenas os locais mais belos para seu prazer.
Álvaro de Campos, o homem da máquina, do progresso. As suas águas seriam rápidas, um pouco turvas até certo ponto do seu caminho porque, depois, passariam a ser vagarosas, olhando sempre em direcção à sua nascente, à nostalgia da sua infância, cansadas das correrias marcadas pelos locais por onde passou.
Por último, Fernando Pessoa ortónimo, o ser atormentado pelo pensamento e pergunta, o existencialista. O rio de Pessoa fluiria, não para o mar, mas deste para a nascente, para as suas origens. Teria um ritmo incerto, águas angustiadas e agitadas.
Todas estas águas, tão diferentes umas das outras, compõem o oceano imenso que é Fernando Pessoa. Um oceano genial, sábio e riquíssimo. Um oceno único.
Fernando Pessoa.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O meu Pessoa




É profunda a minha desolação.
A evolução negativa e galopante deste mundo é deprimente. Já senti raiva, já denunciei e agora choro.
O meu corpo é lágrima seca que pesa na minha alma. Esta, tal como a arte, tem espírito livre e, como a água, flui e contorna obstáculos até encontrar um obstáculo longo de mais para conseguir desviar-se. Então bate-lhe, fica maior e empurra-o, mas o obstáculo é grande demais e esta tem de esperar até ter tamanho suficiente para chegar ao topo do muro e libertar uma gota. Essa gota irá fecundar o terreno e torná-lo belo.
Por que é a sociedade um muro tão alto? Quanto tempo ainda terei de esperar?

Quanto mais tempo espero, menos de mim vou tendo.
Os seres do meu ser não se conseguirão desenvolver, pois, neste momento, a minha alma pesa e o pensar dói.
O meu Caeiro, espírito menino, chora porque já não há flores coloridas nem pedrinhas engraçadas. O meu Reis chora porque é obrigado a rasgar a terra como o Douro barrento e Zeus foi destronado pelo ego do Homem. Sou o Campos cansado da máquina do mundo e o Pessoa preso na sua dor e pergunta, querendo aquele outrora.



Aquele outrora. Aquela ilha! Aquele tudo em nós.




quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Primeira interpretação do espírito aparentemente inocente de Alberto Caeiro


Ping! Naquele dia pachorrento sentei-me em frente da janela fria. Através dela via o céu cor fumo que chora desalmadamente. As suas lágrimas eram gordas e cristalinas e batiam pesadas contra o meu vidro frio, fazendo um poc austero para marcar presença. Depois desfaziam-se em rios que rasgavam caminhos vagarosos e engraçados ao longo da janela fria. Ai...! E a pasmaceira daquele dia era tal que o tempo, que já passava devagar, resolveu parar durante um segundo transformado em hora. E nesse segundo transformado em hora contei todas as gotas que estavam prestes a estatelarem-se no chão alcatroado que se via da janela fria. Eram duas mil setecentas e quarenta e três gotas! Também vi que forma estranha assumem essas mesmas gotas quando tocam no chão, ou no vidro da janela fria. Olhei para o céu e pude analisar os diferentes tons de cinzento daquelas nuvens chorosas e até os reproduzi com lápis de cor e pastel de óleo! Reparei como o ar quente que sai da nossa boca deixa o vidro frio embaciado e como dá para fazer desenhos! E com o dedo desenhei os caminhos impressos pelas gotas na janela fria e explorei todas as bifurcações e junções dos mesmos! Bom, no auge das minhas brincadeiras infantis, PING! Acabou tudo.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Manifesto



«Nós acostumamo-nos com facilidade à preguiça da mente, sobretudo porque muitas vezes essa preguiça esconde-se sob a aparência de actividade: corremos de um lado para outro, fazemos cálculos e fazemos telefonemas. No entanto, tudo isso ocupa apenas os níveis mais toscos e elementares da mente e oculta o que existe de essencial em nós.»
Tenzin Gyatso em: O Livro de Dias, Sextante



Tantas confusões! Tantos problemas! Tanta miséria! Tanta frieza! Tanto sofrimento! E tudo isto porquê?...


Por causa da ambição desmedida, da ânsia pelo poder... Querem ser donos do mundo, donos dos homens e da Natureza....Mas porquê?



Por que quer o Homem ser dono do que é de todos? Porque quer dominar se esse mesmo domínio significa a destruição?


O Homem Ocidental é, em diversos aspectos, pouco evoluído. Não é pouco inteligente, pois realiza projectos complexos, elabora teorias políticas para equilibrar o frágil sistema capitalista, inova na ciência e na arte.... Mas é espiritualmente subdesenvolvido.
Na corrida eufórica que caracteriza o dia da sociedade ocidental, o individuo esquece-se de olhar para si, de falar consigo próprio, de vaguear no seu subconsciente que muitas vezes lhe dá as respostas que necessita para ser melhor, não profissionalmente, mas pessoalmente...
As respostas para as perguntas realmente importantes estão em nós próprios. E essas perguntas não incluem qual vai ser o valor das taxas de juro no futuro, nem se o próximo Primeiro Ministro vai fazer um bom trabalho. As perguntas que deveríamos fazer são: 'o que me faz feliz?' ou ' que posso fazer para me sentir bem comigo mesmo e com os outros?' ou ainda 'que posso eu dar ao mundo?' São perguntas difíceis de responder e que só em nós estão as respostas.

Se formos felizes, há muito mais probabilidades de as pessoas que nos rodeiam serem felizes também, porque o ser humano atrai aquilo que deseja ao mesmo tempo que influencia o ambiente que o rodeia, como acontece com todo o Universo. E é nisso que o Homem Ocidental falha. Falha porque não dá valor ao que é importante. Em vez disso preocupa-se e luta por coisas que lhe fazem mal.
É triste existirem pessoas que lutam pelo petróleo que nos prejudica tanto a nós e ao mundo, poluindo o ar e a água, matando animais e plantas.
É triste existirem pessoas que fabricam e compram armas, que fomentam guerras e morte.
É triste ver filmagens da bolsa de Nova Iorque, onde tantas pessoas gritam e desesperam desordeiramente. (Há quem compare a bolsa com a selva, mas eu discordo. A selva é bem mais tranquila!)
É triste assistir a debates do Parlamento, este que se encontra repleto de, como diria Almada Negreiros, "charlatães"," indigentes","indignos", "vendidos", "ciganões"!
E há tantas coisas tristes que não há água suficiente para afogar todas as mágoas provenientes dessa tristeza.


Pergunto: para quê lutar por uma felicidade tão imperfeita como a que nos proporciona a nossa sociedade? É apenas uma felicidade aparente, falsa...



«Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.»
Fernando Pessoa ortónimo



Estamos a seguir o caminho errado. O sonho criado por nós, de que a nossa sociedade é aquela que nos conduz à felicidade, não está correcto. A sociedade do Homem Ocidental está a ruir.

É necessária uma mudança radical.
É necessária uma harmonização com o nosso mundo, com o Universo.
É necessário sermos novos Índios e voltarmos a considerar a Terra como sendo nossa mãe, todos os seres vivos como nossos irmãos, o rio como o nosso caminho, que flui e ondeia ao sabor da vida. Devemos aprender com eles e recolher da Natureza apenas o essencial para nos mantermos vivos e saudáveis.
É necessário sermos monges tibetanos e aprendermos a meditar de forma a conhecermo-nos e a transcendermo-nos, para aprendermos a viver em paz connosco e com os outros.



A água suja do nosso ser corrompido pelo progresso desenfreado deve ser purificada!

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Reflexão



«Na noite escreve um seu Cantar de Amigo,
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
É a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.»
( D. Dinis, Primeira Parte - Brasão,Mensagem)


Termino este capítulo do meu trabalho com o poema "D. Dinis", da Mensagem, pois neste encontro algumas semelhanças com a minha pessoa e com as minhas expectativas de trabalho.
"D. Dinis" deixa o meu trabalho em aberto, pois este nunca terá fim. A água está entranhada na nossa vida e sem ela não podemos existir, nem fisicamente nem espiritualmente. É essencial.

Comecei este blog uma noite com uma introdução ao seu tema e uma explanação do simbolismo da água. Procurei n' Os Lusíadas e na Mensagem exemplos diversos que demonstrassem a variedade de sentidos e formas que a água pode adquirir e enriqueci o meu trabalho colocando textos da minha autoria e de outros autores, referentes ao tema, tentando relacioná-los com as obras paralelamente estudadas na disciplina de Português.

Infelizmente não desenvolvi o trabalho tanto quanto gostaria. No entanto, estou decidida a dar continuidade a este blog que é o som presente desse mar futuro, o início do meu futuro neste mundo novo que é a literatura. Sinto que a minha vontade é a voz da terra ansiando pelo mar, a vontade de descobrir a vastidão que é o oceano da literatura que ondula sem se poder ver, sentindo-se e ouvindo-se apenas as suas ondas rebentarem na nossa costa apelando a nossa atenção. A minha, já a conseguiram e espero que com estas pequenas canções de amigo, com este começo de busca do oceano por achar, me torne num
plantador de naus a haver.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Desafio: A Alma do Índio




Sou pequena e grande. Sou tudo e nada. Sou o que quiser ser e não o que querem que eu seja. Hoje quero ser água. Quero ser água cristalina, aquela que refresca com um mero olhar, aquela que num só golo sacia a sede, aquela que é mais leve que todas as outras águas, quer sejam do charco, de rios e ribeiros, da chuva, nevoeiro ou até mesmo da gota de orvalho! Aquela água que é mais límpida que as límpidas águas dos lagos e que tem o fulgor das águas marítimas, cuja maresia seduz toda a humanidade.
O murmúrio da minha água lembrará que todos os oceanos, mares e rios são nossos irmãos assim como toda a natureza que nos circunda e ressuscitará todos os que morreram afogados pelo mundo. O reflexo da minha água mostrará o que cada um foi e o que fomos, o que cada um é e o que somos, o que cada um e todos nós poderemos fazer para SER. Este SER é o que nos move. Não é corpo, é energia. Esta energia leva consigo o passado, o presente e o futuro. É o que nos permite viajar em nós próprios, o que nos permite transformar e sentir o que não é fisicamente realizável. Tal como eu hoje sou água devido à minha energia, amanhã posso transformá-la em ar, em terra, em estrela, em nada. Para o fazer basta-me sentir o AMOR do universo, basta amar e ser amada. A partir daí, deixo-me sair do meu corpo para ser só energia e como energia posso ser o que quiser.
Hoje sou água.